O HOMEM JOÃO CEZIMBRA
JACQUES
Segundo
seu biógrafo - o Coronel PM, historiador e membro do Instituto de História e
Tradições do Rio Grande do Sul – Hélio Moro Mariante,
JOÃO CEZIMBRA JACQUES teve sua vida terrena assinalada por um signo dúplice – o
do infortúnio e o do pioneirismo – um e outro com extraordinária influência em
sua vida.
Abriu
os olhos para o mundo na rua do Acampamento,
Sua
mãe, esposa e filhos faleceram muito jovens, vítimas da tuberculose que dizimou
toda sua família, vindo ele próprio sucumbir aos 73 anos de idade, do mesmo
mal.
Juntamente
com seus dois irmãos, Cezimbra Jacques foi criado
pelos avós paternos.
Esse
permanente e angustiante estado emocional influenciou como não poderia deixar
de ser, em sua idiossincrasia, pois que o acompanhou do berço ao túmulo como um
ferrete a amargurar-lhe a existência.
De
estatura mediana, cabelos lisos, maçãs do rosto salientes, grandes orelhas,
olhos levemente amendoados, fronte ampla e bastos bigodes, era bem o tipo
representativo do gaúcho da campanha.
"Indiático, pouca barba, a sua fisionomia tinha traços do
silvícola nacional. Talvez mesmo, o sangue desses antepassados corresse nas
suas veias", segundo precioso depoimento de seu íntimo amigo, Dr. Sinval
Saldanha, que acrescentou: "Original, excêntrico, respeitável por todos os
títulos, gozava de alta consideração no meio social."
O
Dr. Mário Kroeff, amigo pessoal de Cezimbra Jacques, em seus livros "Imagens do Meu Rio
Grande" e "O Gaúcho no Panorama Brasileiro", relata com
pormenores, a tragédia que se abateu sobre a família
de Cezimbra, culminando por acompanhar ele próprio os
restos mortais de seus filhos e de seu pai até a última morada. Encarregado do
enterro pelo próprio Cezimbra, desincumbiu-se
dolorosamente do encargo.
Outro
depoimento valioso, de autoria do também seu amigo Dr. Sinval Saldanha, diz:
"Mais de uma vez visitei-o em sua residência na Avenida Mem de Sá, no Rio. Eu ia em
companhia do Oswaldo e do Mário Kroeff, seus bons
amigos aqui do Sul. Na parede do quarto, penduradas, se viam fotografias de
dois moços e duas blusas de militar. Eram dos entes queridos levados pela
morte. Uma ou duas vezes por semana renovavam-se as flores que enfeitavam
aquele quarto.
E
o velho pai, reverente, saudoso e positivista, se encurvava todos os dias ante
aqueles objetos pertencentes aos caros filhos desaparecidos.
Em
dado momento de nossa palestra, naturalmente sobre assuntos do Rio Grande do
Sul, Cezimbra Jacques abriu uma gaveta e dela tirou
um saquinho. Aberto, vimos que tinha terra. Sim, era terra do Rio Grande do Sul
que o venerando cidadão conservava para lhe servir de travesseiro em seu caixão
mortuário. Emocionado, disse que ia morrer distante de seu torrão natal, pois
não queria afastar-se para longe da sepultura dos filhos, no Rio. E assim
sendo, suplicava aos três amigos presentes, que levassem um dia as suas cinzas
para os pagos sulinos.
Lamentavelmente
não foi cumprida sua última vontade. Oswaldo e eu morávamos
No
entanto, durante o 32º Congresso Tradicionalista Gaúcho, em Capão da Canoa, uma
tradicionalista pediu ao presidente do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul, Cel Cláudio Moreira Bento, para
localizar os restos mortais de Cezimbra Jacques, e o
Instituto então foi a campo. Através das pesquisas realizadas no Hospital
Central do Exército, onde ele faleceu em 28 julho 1922,
na Santa Casa - que administra os cemitérios, na Biblioteca Nacional e no
jornal A Noite - que registrou seu falecimento, chegou-se à conclusão que seu
óbito foi lavrado sob o número 242, tendo sido seus restos mortais trasladados
para Porto Alegre em 3 agosto 1927, com a guia de nº
406. Todavia, ainda não se descobriu quem o levou e para onde.
O MILITAR JOÃO CEZIMBRA
JACQUES
Sua
vida militar pode ser assim resumida:
Em
1867, contando apenas 18 anos de idade e à revelia de seus avós, por quem
estava sendo criado, alistou-se no 2º Regimento de Cavalaria, que passou a
integrar o 3º Corpo do Exército Brasileiro que operou no Paraguai.
Finda
a guerra, retornou à Pátria como 2º Cadete do 4º Regimento de Cavalaria, tendo
sido condecorado com medalhas conferidas pelos governos do Brasil, Argentina e
Uruguai.
Logo
após seu regresso, verifica praça no dia 1º outubro de 1870, ingressando, como
filho de militar, diretamente na Escola Militar. Gaúcho até a medula dos ossos,
preferiu a Arma de Cavalaria, concluindo o respectivo curso no ano de 1874.
Foi
elevado a Alferes em
Em
1895 comandava o 3º Esquadrão do 3º Regimento de Cavalaria.
Foi
instrutor da Escola Preparatória de Rio Pardo e do Curso D’Armas da Escola
Militar do Rio Grande do Sul
A
compulsória atingiu o Capitão Cezimbra Jacques em
1901, quando então foi transferido para a reserva do Exército no posto de
Major. Posteriormente, em 1922, segundo pesquisas do Instituto de História e
Tradições do Rio Grande do Sul, foi promovido post mortem ao posto de
Tenente-Coronel.
Mestre, desenvolveu atividades, desde o tempo do Império, na
Escola Tática e Preparatória de Rio Pardo, grande celeiro de Oficiais
Superiores do nosso Exército, e na Escola Militar do Rio Grande do Sul, também
famosa pelo número de Oficiais ilustres que passaram pelos seus bancos. De um
dinamismo incomum, era muito acatado, quer no meio civil, quer no militar,
sendo muito estimado por alunos e considerado por seus pares.
Foi
instrutor militar do Instituto de Ensino da Escola de Engenharia, hoje Colégio
Estadual Júlio de Castilhos.
A OBRA DE JOÃO CEZIMBRA
JACQUES
Seu
pioneirismo nos é revelado por diversas iniciativas: como escritor versou sobre
assuntos até então pouco explorados ou inéditos em nossas letras; por sua inspiração
e trabalho de proselitismo foi criado o Grêmio Gaúcho, núcleo primeiro no culto
sistematizado das tradições sul-rio-grandenses; fez parte dos primeiros adeptos
do positivismo
Sua
participação na vida pública, social e intelectual do seu Estado foi profícua e plena de serviços prestados.
Dotado
de profundo espírito cívico-patriótico, suas atenções encontravam-se
permanentemente voltadas para as origens e fatos de sua terra e usos e costumes
do homem nela integrado.
Escritor, conferencista, indigenista, professor
e instrutor, possuía o poder da persuasão. Com facilidade atraía amizades e sua palavra,
simples, mas incisiva, conquistava adeptos para os seus ideais.
Cidadão
integrado na política de seu país, foi um dos fundadores do Partido Republicano
no RS (1880).
Já
na reserva do Exército, teve ativa participação nas liças partidárias.
Freqüentemente proferia palestras e conferências versando sobre assuntos
políticos; escreveu dois pequenos ensaios: "O Parlamentarismo e o
Presidencialismo" e "O Presidencialismo Puro", ambos em 1918.
Integrou
o elenco de intelectuais gaúchos que fundou a Academia de Letras do RS, onde
ocupou a cadeira de Crítica e História. É o patrono da cadeira nº. 19 da atual
Academia Riograndense de Letras.
Discípulo
convicto de Augusto Comte, revela
seus ideais positivistas em vários ensaios sobre política e assuntos locais,
todos embasados no Sistema Político Positivo. Seguindo seu destino de antecipar
fatos e idéias, Cezimbra Jacques publicou, também em
1918, um pequeno ensaio sob o título "A Proteção ao Operariado na
República", tema pouco explorado e quase tabu à época.
Indigenista, falava muito bem o Guarani e possuía bons
conhecimentos do Caingangue, o que lhe permitia dialogar com representantes
dessas tribos. Era uma espécie de cônsul dos aborígines semi-civilizados
então existentes no RS. Recebia-os em sua residência na Várzea ( atual Avenida João Pessoa,
Além
de considerações a respeito da vida, usos e costumes dos indígenas
sul-rio-grandenses, registrados em seu "Ensaio Sobre os Costumes do Rio
Grande do Sul" (1883) e em "Assuntos do Rio Grande do Sul"
(1911), escreveu uma pequena monografia intitulada "Frases e Vocábulos de
Aba Neenga Guarani e Notas Sobre os Silvícolas".
Estas
duas obras tratam de história, geografia, usos e costumes das gentes da raia
meridional patrícia, de alto interesse para antropólogos, folcloristas e
estudiosos
Registra
ainda um pequeno vocabulário; dá-nos uma sintética notícia da nossa antologia
literária e inclui valioso estudo etnográfico referente aos indígenas
instalados no RS.
Um
estudo sério da formação do homem no pampa sul-brasileiro não pode prescindir
de consultar a obra de Cezimbra Jacques
É
mais um mestre, um pesquisador e divulgador que um escritor. Sua aspiração era
ser útil, e o foi.
Apaixonado
por seu pago, orgulhoso da história, admirador da geografia e profundo conhecedor
dos costumes sul-rio-grandenses, por ele recolhidos, analisados e,
principalmente, vividos, passou a publicar os resultados das suas remebranças, observações e pesquisas
O GAÚCHO JOÃO CEZIMBRA
JACQUES
Entusiasta
e excelente tocador de viola era grande conhecedor das danças antigas, cujas
características – coreografia, música e letra – recolheu
nas suas andanças pelos pagos.
Foi
um grande ginete e exímio domador. Anacleto Torres relata que João Cezimbra Jacques costumava passar temporadas nas estâncias
de parentes e amigos, participando, com invulgar entusiasmo, de todas as
práticas campeiras, nas quais se revelava um verdadeiro mestre, informando-nos
ainda que "usava estribos de cônica aspa de touro brasino
e botas de meio pé, feitas de garrão de bagual
tordilho-negro".
Conseguiu
ver colimado seu anelo de criar no Rio Grande do Sul entidades de cunho
nativista onde, segundo suas próprias palavras, se pudesse
"cultivar os usos salutares do passado, já nos outros ramos de atividades
de um povo, já nos jogos e diversões, de modo a poder-se reproduzir esses
quadros da vida dos nossos Maiores nas comemorações dos grandes acontecimentos
do passado...".
Auxiliado
por um grupo de dedicados patriotas, civis e militares, e entre estes, colegas
e alunos da então Escola Militar, fundou o Grêmio Gaúcho na cidade de Porto
Alegre, no dia 22 de maio de 1898. No seu próprio dizer, foi ele o
"primeiro iniciador de sociedades dessa ordem no Rio Grande do Sul"
com a fundação do Grêmio Gaúcho.
Por
este motivo foi agraciado com o honroso título de Patrono
do Tradicionalismo Gaúcho, resolução tomada no 6º Congresso
Tradicionalista Gaúcho efetivado na cidade de Cachoeira do Sul e patrocinada
pelos ilustres Carlos Galvão Krebs e Antônio Augusto
Fagundes, então presidente e diretor administrativo, respectivamente, do
Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore.