PREPARO DO CHARQUE

O Que é Carne Seca?

A salga e a desidratação, seguida ou não da defumação, foram e ainda são as formas mais primitivas de conservação da carne e decorrem da necessidade de preservar o excedente do produto obtido no abate, dessecando-o ao vento ou próximo a fogueiras.

Carne-de-sol, carne-do-ceará, carne-do-sertão, carne seca ou “jerked beef”, charque, carne-de-vento, jabá, todos esses nomes são aplicados para designar praticamente um único produto: mantas de carne desidratadas e dessacadas, muito consumidas e usadas em um sem número de recitas de norte a sul do País.

Quem Inventou
As primeiras “charqueadas” de que se tem notícia datam de 1780, realizadas pelo cearense José Pinto Martins, numa propriedade situada às margens do Rio Pelotas, no Rio Grande do Sul. Tudo feito com muita simplicidade num galpão onde se preparavam e salgavam as carnes que ficavam expostas ao ar livre para secar.
Nessa época, a capitania do Rio Grande foi considerada o “inferno dos negros”, pois eles eram utilizados como mão-de-obra escrava e quase sempre, tratados rudemente para se conseguir maior produção.
Com o passar do tempo o charque, que era usado na alimentação dos escravos e das camadas mais pobres da população, acabou ganhando status e tornou-se um dos principais produtos da economia sulista. Atualmente deixou de fazer parte só do cardápio dos pobres e passou a fazer parte também dos mais requintados restaurantes, com muitas variações de receitas.

Você sabia que o charque faz parte da história do Brasil?

O charque tem um papel muito importante na história e economia brasileiras, viabilizando a expansão da criação de gado e a fixação de habitantes em zonas rurais. Não é difícil imaginar que há até algumas décadas atrás não havia eletricidade em grande parte do país, particularmente nas zonas rurais, tornando o charque uma deliciosa opção de preservação de carne para quem não dispunha de geladeira. Além do que as famosas 'charqueadas' do sul do Brasil no século 18 trouxeram desenvolvimento e riqueza para a região sul do estado do Rio Grande do Sul.

Hoje o charque ainda é bastante consumido, por ser uma carne muito saborosa e com excelentes aplicações culinárias. O charque permanece uma ótima opção para os consumidores que vivem em locais de difícil acesso ou com condições de transporte e refrigeração mais precárias, além de ser um bom produto de exportação para o Brasil.

Carne Seca, Carne de Sol e Charque. Qual a Diferença?

A diferença reside basicamente na técnica de preparo. Todas são feitas com carne bovina, sendo que a carne de sol, depois de cortada, é ligeiramente salgada e deixada em locais cobertos e bem ventilados. Como exige um clima muito seco, o preparo da carne de sol só é possível nas regiões semi-áridas do Nordeste. A secagem é rápida, formando uma espécie de casca protetora que conserva a parte de dentro da carne úmida e macia. Dos três tipos de carne desidratada, é a que cozinha com maior rapidez.

Já a carne seca, também conhecida como carne-de-vento, carne-do-sertão, carne-do-Ceará, carne-do-Sul, ou jabá (do tupi yaba ou jabau, que significa fugir, esconder-se), é esfregada com mais sal e empilhada em lugares secos. As "mantas" de carne são constantemente mudadas de posição, para facilitar a evaporação. Em seguida elas são estendidas em varais, ao sol, até completar a desidratação.

O charque, típico da região Sul do Brasil (o nome vem do dialeto quíchua xarqui, língua dos índios que habitavam a região dos Andes), é preparado de modo similar ao da carne seca. O diferencial está na maior quantidade de sal e de exposição ao sol ao qual o charque é submetido, o que lhe garante uma maior durabilidade.


E nas diversas regiões do Brasil, o nome é o mesmo?

O charque e a carne-seca são amplamente consumidos no Brasil e têm nomes diferentes conforme a região. Alguns dos nomes são:

CHARQUE: carne-seca, carne-do-sertão, xergão, chalona, xarqui, jabá ou paçoca.

CARNE-DE-SOL: carne-de-sertão, carne serenada, carne-de-viagem, carne-mole, carne-do-vento, cacina ou carne acacinado.

 

Charque versus carne seca( Jerked Beef)
Existem pequenas diferenças entre a carne seca ou jerked beef (carne bovina salgada curada e seca) e o charque (carne bovina, salgada e dessecada). O processo tecnológico básico é o mesmo. Só que, no caso da carne seca, é adicionado nitrito de sódio ou de potássio à salmoura e o teor de umidade é maior.

 

 

Receita Caseira

É muito importante separar uma manta de carne bem macia e esticá-la até que fique com 5 centímetros de espessura, no máximo. Depois, passe bastante sal grosso dos dois lados da carne e esfregue bem. A seguir deixe-a descansar na salmoura, numa vasilha de plástico, até o dia seguinte. Vire a carne pelo menos duas vezes nesse período. No dia seguinte leve-a ao sol para secagem. Mas, tome cuidado com a poeira ou insetos que podem estragar o seu trabalho. Pode-se ainda deixar a manta durante toda a noite no sereno, que a carne ficará ainda mais gostosa. Nesse caso é preciso do dobro do cuidado para que durante a noite a carne não vire comida de algum gato ou cachorro faminto. Dependendo da época do ano e da intensidade do calor do sol, em um dia a carne estará curada e poderá ser guardada na geladeira para ser consumida no prazo máximo de uma semana.”

 

PREPARO DO CHARQUE, MÉTODO INDUSTRIAL

Para a fabricação do charque e da carne seca vários cortes tradicionais são utilizados: ponta de agulha, dianteiros e carcaças destinadas ao aproveitamento condicional por razões de ordem técnica. A carne de sol é uma variação artesanal, na qual as mantas recebem salga seca e vão direto para a exposição ao sol. É um processo que inibe o crescimento de bactérias e preserva o produto de ações prejudiciais induzidas pelo excesso de umidade, além de reduzir custos com embalagem, armazenagem e transporte, pois não necessita ser mantido sob refrigeração.

As Fases
Bem, vamos mostrar como são feitos o charque ,

1.0 - O charque (carne bovina, salgada e dessecada) é o resultado da salga forte, compreendendo várias etapas:
1.1 - Salga úmida: feita em tanques especiais onde as peças ficam em movimentação constante durante 30 a 40 minutos, numa temperatura de cerca 15ºC, sendo utilizado sal em solução a 23,5º Baumé ou 95º salômetros (335 g de sal/Kg de água);
1.2 -
Salga seca: é o segundo passo do processo e dura cerca de 12 horas. Mas, pode chegar até 24 horas;
1.3 - Ressalga: consiste na adição de sal de primeiro uso entre as diversas camadas de carne, sempre com a porção gordurosa voltada para cima;
1.4 - Pilha de volta: é a inversão das posições das peças;
1.5 - Tombos: inversões em que as partes inferiores das peças ficam voltadas para cima na nova pilha;
1.6 - Pilhas de espera: são feitas por razões ligadas às condições atmosféricas ou por ordem comercial;
1.7 - Pré–lavagem: é feita em tanques especiais com água e cloro ativo, antes da dessecação e remoção do excesso de sal da superfície. As peças de carne já curadas e lavadas são empilhadas para escorrer a água.
1.8 - Dessecação: é feita em varais ao ar livre, seguindo a orientação norte-sul com o objetivo de aproveitar melhor os raios solares e o vento;
1.9 - Estendidas: a primeira estendida ao sol é breve para cortar os efeitos nocivos da canícula (hora da maior intensidade dos raios solares, no meio do dia) e impedir a acentuada dessecação superficial que dificulta a da porção interna. Após segue-se um descanso de três dias, sempre acompanhado de novas estendidas intercaladas com descanso e finalmente chega-se ao processo final que é a embalagem, onde o charque é prensado em pequenos pacotes e envolvido em pano de algodão ou então embalado em fatias de 500g a 1kg em plástico, sob vácuo.

Curiosidades


• O processo de conservação artesanal da carne pelos processos de salga e dessecação ao Sol é conhecido há muito tempo na América do Sul, especialmente na região dos Andes.
• Lá o produto é chamado, na língua quéchua, de charki. Esta palavra, incorporada ao espanhol, desceu dos Andes argentinos em direção aos Pampas e chegou aos ouvidos dos nossos gaúchos.
• Então aportuguesada para charque foi incorporada ao vocabulário brasileiro à medida que se difundiam as receitas em que o produto aparecia como ingrediente.

Dicas de uso

Antes do preparo, a carne-de-sol deve ser imersa em uma vasilha com água por aproximadamente duas horas, para reidratá-la e reduzir o teor de sal. O aspecto final será bastante semelhante à carne fresca.

O charque também deve ser colocado em água por várias horas (de um dia para outro), podendo-se deixar a vasilha na geladeira. Posteriormente ferve-se a carne por alguns minutos, e trocando-se a água por duas ou três vezes, elimina-se o excesso de sal. Seu sabor é mais acentuado e adiciona um toque especial a vários pratos de nossa culinária, como a feijoada.


Usos na culinária

São inúmeras as receitas que utilizam charque, como o carreteiro de charque (região sul), carne-seca com banana (região centro-oeste), canjiquinha mineira (Minas Gerais), dobradinha baiana (Bahia), escondidinho de charque (Pernambuco), nossa tradicional feijoada, farofas, e várias outras.

Tanto em pratos tradicionais da cultura regional, quanto em pratos requintados como o 'jerked beef com abóbora e leite de coco', encontrados em bons restaurantes do Brasil, o charque seguramente adiciona um sabor incomparável e característico de nossa culinária brasileira.

RECEITAS COM CHARQUE

ARROZ CARRETEIRO

INGREDIENTES:
1/2 kg de charque, 1 cebola picada, 1 dente de alho picado, 2 colheres de sopa de óleo, 4 xícaras de água, 1/2 kg de arroz, cheiro verde picado.
PREPARAÇÃO:
Lavar o charque e deixar de molho de véspera (não sendo possível deixar o charque de molho, dar uma esquentada depois de picado, pois o efeito será o mesmo. Este é o modo de proceder do carreteiro, à falta de tempo). Trocar a água diversas vezes para que não fique salgado. Cortar o charque em pedaços e refogar com óleo e a cebola e o alho bem picados, de preferência em panela de ferro pré-aquecida. Acrescentar o arroz e cobrir com água. Deixar cozinhar, mexendo de vez em quando, para haver uma cocção parelha. Assim que o arroz estiver cozido, retirar do fogo e servir. Na hora de servir, coloque o cheiro verde por cima.

Acompanhar com feijão mexido.
Serve 4 pessoas
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OUTRAS RECEITAS COM CHARQUE

Carne da Lua

Ingredientes

Para o Tempero

Modo de Preparar
Depois de dessalgar completamente a carne, deixe durante uma noite inteira repousando no sereno (claro, protegida de um possível ataque dos gatos da vizinhança) sem nenhum tempero. Depois separe a carne em bifes grossos. Faça um corte na lateral dos bifes, dividindo a sua espessura ao meio sem separar as partes. Os bifes vão ficar “abertos” como as páginas de um livro. Faça alguns cortes não muito profundos em diagonal na superfície dos bifes. Misture todos os ingredientes de tempero numa travessa de louça, coloque os bifes já preparados e deixe marinar durante 10 minutos. Depois leve-os à grelha a uma distância de 30cm do braseiro durante 8 minutos de cada lado. Esta receita não deve ser servida além do ponto ideal de cozimento. A carne ficará dura e o sabor perderá todas as suas características essenciais.

ARROZ CARREGADO

INGREDIENTES:


1/4 kg de charque, 1/4 kg de lingüiça, 1/4 kg de carne de paleta, 3/4 kg de arroz, 5 folhas de couve, 3 cenouras médias, 3 batatas inglesas, 2 cebolas, 4 dentes de alho, 1 pimenta verde, 1 folha de louro, tempero verde.

PREPARAÇÃO:


Aferventar o charque para tirar o excesso de sal. Picar miúdo o charque, a carne de paleta e a lingüiça. Fritar tudo junto, e quando estiver no ponto, juntar as cebolas, o alho, a pimenta e a folha de louro, tudo bem picado. Cortar a cenoura em rodelas finas, a batata em pedaços pequenos e a couve em tiras bem estreitas. Quando os temperos estiverem prontos, juntar o arroz e deixar fritar por cinco minutos. Colocar água fervendo até 2 dedos e meio acima dos ingredientes e juntar a cenoura, a batata e a couve, misturando bem. Deixar cozinhar por cinco minutos em fogo brando e corrigir o sal, colocando o tempero verde picado.

Porção para 5 pessoas


JOÃO TRANÇUDO

INGREDIENTES:


1 kg de charque, 1 cebola, 3 dentes de alho, 1 pimenta, óleo, 1 kg de massa

PREPARAÇÃO:


Fazer o guisado, conforme a receita de guisado de charque com bastante molho. Cozinhar a massa à parte, em água e sal. Quando estiver pronto, misturar o guisado à massa.

Porção: 3 pessoas


CHARQUE NO ESPETO

INGREDIENTES:


2 kg de charque gordo, de manta, novo.

PREPARAÇÃO:

Lavar bem o charque e deixar de molho durante 2 horas. Espetar e enxugar com um pano bem limpo. Levar às brasas com a parte da gordura virada para o fogo. Em seguida virar para que a gordura penetre no lado que é magro. Servir com um bom pirão feito com leite. Preparo: 30 minutos Para 8 pessoas

ROUPA VELHA ou DESFIADO DE CHARQUE

INGREDIENTES:


1/2 Kg de charque, 1 colher de sopa de óleo, 1 cebola picada, farinha de mandioca e temperos à vontade.


PREPARAÇÃO:


Lavar o charque e deixar de molho de véspera (não sendo possível deixar o charque de molho, dar uma esquentada depois de picado, pois o efeito será o mesmo.). Trocar a água diversas vezes para que não fique salgado. Cortar em pedaços e cozinhar em água até amolecer bem. Desfiar. Refogar no óleo com a cebola picada e engrossar com farinha de mandioca. Verificar o sal, e, se necessário, retemperar e apimentar.Serve 4 pessoas.

 


CHARQUE FARROUPILHA

INGREDIENTES:
1 kg de charque; ½ kg de farinha de mandioca; 2 cebolas; 4 dentes de alho; 2 colheres (sopa) de banha; 1 pitada de colorau; 1 molho de tempero verde; 1 pitada de pimenta.

PREPARAÇÃO:


Cortar o charque em tiras de 4 ou 5 centímetros.
Lavar bem, colocar em uma panela com água suficiente para cobri-lo e levar ao fogo. Antes de ferver, escorrer a água e levar novamente ao fogo, acrescentando a banha, a cebola, o alho picado, o colorau e a pimenta, fazendo um refogado.
Colocar água até cobrir o charque e deixar ferver por 5 minutos. Retirar a metade do molho e levar em outra panela, acrescentando a farinha aos poucos, até formar um pirão bem firme.
Colocar tempero verde picado sobre o charque e servi-lo com o pirão, dispondo tudo em uma travessa. Na travessa, o charque vai em cima do pirão.

Acompanhamento:
Salada gaúcha de tomate-alface-cebola e arroz.

Porção: 8 pessoas
Tempo de preparo: 1h

Outras Receitas:

- Carne Seca com Abóbora
- Feijão Tropeiro
- Crepes de Carne Seca com Catupiry
- Arroz de Carreteiro
- Paçoca de Carne Seca
- Carne de Sol com Baião de Dois
- Feijoada