REFLETINDO SOBRE O TRADICIONALISMO HOJE

Ivo Benfatto*

               

É fato notório que, em pouco mais de 50 anos de existência, o movimento tradicionalista gaúcho organizado avolumou-se de tal forma que se transformou num originalíssimo e gigantesco organismo social, extremamente difícil de ser mantido integralmente identificado e fiel aos fundamentos básicos que lhe deram origem.  A base filosófica do Movimento Tradicionalista está presente na tese de Barbosa Lessa “O Sentido e o Valor do Tradicionalismo” apresentada por no 1º Congresso Tradicionalista realizado em 1954, assim como na sua “Carta de Princípios”, sob a forma de 29 objetivos claros e precisos, que devem ser perseguidos por seus militantes através das entidades federadas pelo MTG. O desenvolvimento de qualquer atividade se tiver por norte a busca de tais objetivos, por si só, bastaria para facilitar-lhe a coesão interna e a manutenção da coerência entre as ações com os seus propósitos.

            Um observador mais atento verificará que muitas entidades filiadas ao MTG desenvolvem suas atividades sem a necessária consciência de que fazem parte de um universo maior, que possuem objetivos comuns a outras entidades, relevantes não só para si, mas para toda a sociedade, os quais só podem ser atingidos pelo somatório do esforço de todos os tradicionalistas, unidos em forma associativa, formando e dando vida útil ao Movimento.

            As entidades deveriam aprimorar a organização interna para proporcionar melhores condições para que seus associados, e seus dependentes, tivessem facilitada a absorção de conhecimentos que os levassem à plena consciência da sua identidade cultural, dos reais e sérios objetivos que nós todos, como tradicionalistas, devemos perseguir, o que não vem acontecendo a contento, seja por falta de uma visão mais arrojada, como dirigentes, ou pela própria estrutura organizacional do MTG que precisa aperfeiçoar-se para atender as necessidades decorrentes de sua sempre crescente expansão. Muitos de nós temos descurado do fundamental, priorizando objetivos que deveriam ser somente intermediários para conquistas maiores. Pensamos com timidez ou voltamos nosso esforço para, muitas vezes, apenas buscar o destaque da nossa entidade, exaltando demasiadamente o sucesso, traduzindo, num troféu de vitória, o objetivo maior a ser atingido, como se essa fosse a razão maior de nossas existências. Da mesma forma, abrem-se espaços para a assimilação inconseqüente de modismos que, no seu somatório, agridem nosso cerne cultural onde residem idéias, crenças e valores que traduzem história, hábitos e costumes, ou seja, nosso jeito gaúcho de ser. Isso é um perigo, pois nossas decisões deixam de ter o lastro da tradição cultural para refletir outros interesses. Toda contribuição cultural é bem vinda, mas a decisão de assimilação deve ser consciente e pessoal.

            Temos capacidade para abordar e discutir qualquer tema visto a amplitude, a abrangência e a heterogeneidade de vivências dos nossos militantes e, para isso, basta que busquemos conhecer os objetivos a atingir, transformá-los em metas e nos motivar para a ação, não de forma tímida, mas na real medida das nossas necessidades e potencialidades.

            Não podemos deixar, sob hipótese alguma, por inconsciência, acomodação ou alienação, que se crie e se fortaleçam condições de risco que possam transformar esse formidável movimento social, de características tão próprias, tão nosso, num enorme, belo e frágil castelo de areia.

            Este tema pode parecer complexo, mas lembremo-nos que o MTG, as Regiões e as Entidades Tradicionalistas são abstrações que somente tomam forma e sentido pela existência de cada tradicionalista, que, unido aos demais em torno de um ideal comum, através de ações coerentes com a base filosófica que o embasa, são a garantia de idéias, crenças e valores construídos pelos nossos antepassados. Essas entidades, criadas por nós, serão exatamente o que nós quisermos que elas sejam, daí a importância desta proposta de reflexão: Estaremos no caminho certo? Temos conhecimento consciente do que queremos e do que o tradicionalismo, enquanto movimento, espera de nós?

 

 

*Tradicionalista,

Membro do Conselho Estadual de Cultura