O Movimento Nativista e o ciclo dos Festivais

 

O Nativismo é um movimento predominantemente musical, desencadeado, pela criação de festivais, de cunho nativista na década de 1970, que alcançou seu auge nos anos 80.

O festival pioneiro, que serviu de modelo para organização e definição de objetivos, foi a Califórnia da Canção Nativa, cuja 1ª edição aconteceu em 1971 na cidade de Uruguaiana. Os festivais realizam-se anualmente e aos mais prestigiados acorrem milhares de pessoas de todo o Estado, a imprensa especializada e o grande contingente de artistas já integrados ao movimento. Segundo Barbosa Lessa (1985, p.108), o grande interesse se refere à curtição dos acampamentos de Uruguaiana, Santa Maria, Cruz Alta, Carazinho, Taquara, Santa Rosa, São Sepé e onde quer que haja uma boa guitarra para apoiar canções que falam sobre êxodo rural, a América Latina e o gaúcho do futuro. [...] bom mesmo é curtir um acampamento nos festivais nativistas, como uma versão de Woodstock ao alcance de quem não tem muita grana para gastar.

Lessa faz alusão também à influência do movimento ecológico no Rio Grande do Sul que, para Ruben Oliven (1984, p.59), é apenas um dos motivos que justificam o Nativismo: várias explicações poderiam ser avançadas em relação a este fenômeno, desde interpretá-lo como mais um modismo de classe média (sugerido talvez pelos meios de comunicação de massa), encará-lo como vindo ao encontro da onda naturalista e ecológica queapela aos jovens, ou vê-lo como uma tendência nostálgica de volta às origens rurais perdidas (ou jamais possuídas).

O sucesso alcançado pela Califórnia, que é um dos mais importantes festivais e que durante a década de 1970 predominou de forma quase absoluta, fez com que houvesse o interesse de outros municípios para a realização de seus festivais, pois além da promoção cultural se tornou grande incentivador do turismo local.

Assim, o Rio Grande do Sul presenciava um surto de festivais, em número tão elevado, que se realizavam quase que semanalmente.

O calendário de festivais para o ano de 1987, por exemplo, previa 44 eventos, mas esse número já havia sido maior, considerando os festivais que não conseguiram sobreviver.

A grande maioria dos festivais possuía estrutura suficiente para promover o lançamento de discos, receber os artistas consagrados e o grande público estadual. Os de menor estrutura restringiam-se à sua região.

Entre os festivais de maior importância, quer seja pela proposta ou pelo porte, encontram-se a Tertúlia Musical Nativista (Santa Maria), Festival da Barranca6 (São Borja), Coxilha Nativista (Cruz Alta), Musicanto Sul-americano de Nativismo (Santa Rosa) e a pioneira Califórnia da Canção Nativa (Uruguaiana).

A escolha dos nomes para os festivais buscava o linguajar regional e não deixava de causar estranheza para a maioria da população urbana, a qual já havia perdido o contato com grande parte deste vocabulário.

A busca de um nome que identificasse o festival e a região em que se realizaria pode ser comprovada no quadro ao lado, onde também se encontram dados numéricos sobre a freqüência de público nos eventos.

Alguns destes festivais seguem a linha proposta pela Califórnia, com pequenas variações contidas em seus regulamentos. Outros têm uma linha mais identificada com a região onde se realizam.

O que busca maior universalidade é o Musicanto de Santa Rosa, aberto a manifestações nativistas de toda a América Latina.

Muitas polêmicas se travaram em torno dos regulamentos, que impunham uma série de condições à inscrição das músicas e dos participantes. Sobre isto, Luiz Coronel (Tarca, n.14, p.22), participante das primeiras Califórnias, tem uma opinião taxativa: “festival não tem proposta. Quem tem proposta é o artista”. Defendia que os festivais deveriam ter uma identidade, que os diferenciasse entre si, o resto seria com os artistas que devem ter liberdade de criação. Coronel, apesar disso, considera o ciclo dos festivais de grande importância, pois “poetas, músicos, intérpretes, instrumentistas muito devem a estes eventos em termos de conquista de espaço para revelação de seus trabalhos” (Tarca, n. 14, p.21).

O papel que os festivais desempenharam no revigoramento da música gaúcha e na sua cultura como um todo é reconhecido também por Sérgio “Jacaré” Metz (1986, p.2), que salientou: “o RS não possui, ainda, lugar onde as manifestações artísticas-musicais e poéticas, possam abrir suas cem escolas e germinar suas cem flores. [...] Acreditamos que se deve mandar composições para festivais nativistas, pois eles representam bem mais para a cultura popular do que os prêmios e regulamentos”.

Gilmar Eitelvein (1985, p.25), que fazia jornalismo cultural, na época escreveu: “o panorama musical gaúcho é de efervescência total. O resultado disso tudo só poderá ser melhor, até porque nenhum estado brasileiro experimenta igual situação. A redescoberta de nossos valores culturais - para os tradicionalistas mais ferrenhos quase um separatismo que alimenta o ego, uma ideologia própria - é uma forma saudável de revolução interna”.

Havia unanimidade entre críticos e artistas em ver positividade na realização dos festivais, apesar de fazerem severas considerações quanto ao bitolamento dos regulamentos, procedimentos das comissões organizadoras e julgadoras, “patrulhamento” dos tradicionalistas quanto aos ritmos, indumentárias e instrumentos musicais, grande profusão de festivais, etc.

Um festival que é aplaudido, tanto por tradicionalistas, porque não fere seus dogmas, quanto por nativistas, porque atende a sua proposta, é o Musicanto Sul-americano de Santa Rosa, que é aberto às manifestações nativistas de todas as regiões do Brasil e da América Latina. Segundo Luiz Carlos Borges (Santa Rosa), seu criador e então coordenador, “o festival não barra estilos musicais, ritmos e temas, e aceita instrumentos eletrônicos de todas as formas”. Por isso e por seu projeto estético, o Musicanto é um dos mais importantes festivais do Estado, conhecido no Brasil e na América Latina.

Para explicar o fenômeno dos festivais diversas são as opiniões encontradas entre os produtores culturais, desde as formadas no campo puramente estético e pessoal até as relacionadas com a política nacional, todas desembocando na questão cultural.

Para Luiz Coronel (Tarca, n.1), foi regional contra o processo de massificação cultural que se deu no Brasil, principalmente, pelo super desenvolvimento das engrenagens de produção eletrônica, da centralização cultural, via TV. Parece que o gaúcho reagiu a tudo isto, fazendo um retorno às suas bases. O regionalismo é a estratégia de defesa da cultura brasileira, via cultura regional. Se a juventude gaúcha, assim como todo o gaúcho, não se voltasse para a sua cultura local, seria engolida pela grande mídia nacional....

Enfocando a questão do artista, Luiz Carlos Borges (Santa Rosa) e João Almeida Neto (Santa Maria) apontam para o mercado de trabalho e para a busca da inovação na criação artística.

O primeiro acha que o gaúcho é pela própria índole, inquieto [...] arrisca sempre, aposta quase tudo. É de sua formação histórica, política e cultural a intenção de criar, descobrir,

realizar... A busca de coisas novas, de um novo caminho para a música era iminente. Tudo no âmbito regional, estava muito repetitivo, com Teixeirinha, Gildo de Freitas...

O segundo, também compositor e intérprete, aponta a necessidade que algumas pessoas sentiram de buscar um espaço, um palco para o trabalho que elas desenvolviam, que acabou culminando com a criação da Califórnia. Deste fato surgiu por motivos políticos e turísticos em cada cidade um festival.

Como etnomusicóloga, Rose Marie Garcia (Santa Maria) vê a tradição como uma das possibilidades do surgimento do Movimento Nativista:

O gaúcho sempre teve alguns valores que defendeu com unhas e dentes e um destes valores é a tradição, por ser relevante em termos históricos e sociais, em termos de usos, costumes, preferências e visão de futuro. Podemos dizer que este elemento de tradição está tão presente neste final de século 20 como esteve nos séculos passados.

Entre os tradicionalistas, a opinião mais corrente é que o Nativismo não é um novo movimento, mas a continuação do Tradicionalismo, incorrendo nesta questão uma das discussões pela hegemonia na cultura regional gaúcha. Barbosa Lessa (Porto Alegre) diz: “não conheço fenômeno cultural que tenha surgido em 70/80.

O que houve é que a partir de 70 Porto Alegre se acrescentou ao Movimento preexistente e vitorioso. Se acrescentou através dos jovens que fizeram sua opção entre o ‘hippie’ e o gaúcho. O Movimento Nativista é um acréscimo ao Tradicionalismo, na parte da música”. Antônio Augusto Fagundes (Porto Alegre) concorda com Lessa: os anos 70 exibiram apenas um reflexo de uma inquietação que em realidade veio da 2a Guerra Mundial, quando o Brasil e toda a América Latina foram bombardeados pela política colonialista, cultural e econômica vinda dos Estados Unidos [...] então na base deste Movimento que se sente a partir de 70 o que está é o Tradicionalismo, foi o que deflagrou isto, foi quem devolveu ao jovem uma preocupação pelo que era seu.

Com uma visão mais ampla sobre as questões estaduais, e tendo em vista sua atuação como político, José Fogaça (Porto Alegre), que também participou do início do Movimento Nativista, caracteriza-o como uma espécie de reação nacionalista. Disse que o Nativismo tem um caráter nacionalista, ou seja, é uma atitude de resistência cultural. O RS intenta, em determinado momento em que as circunstâncias políticas e culturais são extremamente desfavoráveis para sua autonomia, uma empreitada de resistência cultural.

Esta reação surge também diante de circunstâncias econômicas. A perda de autonomia, a perda cada vez maior do RS como presença econômica no cenário nacional; a centralização unitária do sistema político; a concentração dos tributos e arrecadações nas mãos do poder central e autoritário; a cada vez menor participação do RS nos espaços políticos e econômicos sobreposto pela ocupação político-cultural de outras culturas, principalmente as emanadas pelo centro do país, e de procedência estrangeira. O interessante desta reação, e por isto ela é nacionalista, é que se expressou em todos os níveis da sociedade. Desde a chamada classe dominante até as classes subalternas.

Ela foi empalmada no primeiro momento pela classe dominante, então é uma reação nacionalista, mas é preciso deixar bem claro, que não é necessariamente progressista. Praticamente todas as análises colhidas gravitam em torno das acima citadas, que explicam parcialmente o fenômeno, mas não tocam no ponto fundamental. Por isso concorda-se com Ruben Oliven (1984, p.59, grifo meu) quando diz que “várias explicações poderiam ser avançadas. [...] Sem descartar inteiramente nenhuma destas interpretações, é forçoso também reconhecer que a adesão às coisas gaúchas corresponde à afirmação de uma identidade regional”. Ressalta o autor que “vale lembrar que em épocas de crise, como a nossa, a identidade nacional é com freqüência afirmada pela diferença” (1984, p.67).

O sucesso dos festivais está justamente neste ponto, pois viabilizaram no momento certo a canalização destes anseios e deram respostas a esta busca da identidade perdida, foi “resposta, não mais em termos de um separatismo, como a tradição farroupilha, mas enquanto expressão de distinção cultural em um país onde os meios de comunicação de massa tendem a homogeneizar a sociedade culturalmente a partir de padrões muitas vezes oriundos na zona sul do RJ” (Oliven, 1984, p.67).

O Movimento Nativista desencadeado pelos festivais, entretanto, saiu do âmbito musical, expandiu-se para a área dos costumes e do consumo, tornando-se, segundo Dilan Camargo (Tarca, n.2, p.11), um fenômeno muito mais social do que musical”, justificado pela “participação da classe média gaúcha seja no palco como na platéia [...] mobilizando massas humanas de milhares de pessoas, na sua grande maioria jovens.

A mudança de comportamento em relação às “coisas do Rio Grande” foi facilmente detectada, pois a população de classe média passou a admirar e adotar hábitos tradicionais anteriormente taxados de “grossura”  como usar bombachas e tomar chimarrão, o que fez com que aumentasse em 80% o consumo de erva-mate (Urbim, 1984), fosse retomada velhas expressões regionais como “peleia” por briga, “charla” por conversa, “retoço” por brincadeira, etc., além da famosa expressão de tratamento tchê.

O Movimento Nativista desencadeou ainda um crescimento muito grande do mercado de produção artística, ampliando o espaço para seus poetas, compositores e músicos, gerando a profissionalização dos mesmos, o crescimento do mercado editorial, o aumento dos espaços para a cultura regional na mídia e gerou, sobretudo, uma grande polêmica sobre a cultura regional gaúcha.

8Grossura, segundo Glaucus Saraiva, é um neologismo criado pelo Tradicionalismo.

Este vocábulo tem conotação pejorativa e se refere ao comportamento

das pessoas ligadas à vida rural, interiorana e ao Tradicionalismo. Equivale

à “comportamento caipira”.

 

A Califórnia da Canção Nativa

 

Califórnia vem do grego e significa conjunto de coisas belas. No Rio Grande do Sul foram chamadas de califórnias as incursões guerreiras de Chico Pedro ao território Oriental. Mais tarde, deu se esse nome às corridas de mais de dois cavalos em cancha reta (Nunes e Nunes, 1984, p.81). Embora haja controvérsias, o nome teria sido sugerido por Colmar Duarte, idealizador do festival, com o objetivo de identificar totalmente o evento com a cultura regional. O troféu oferecido aos vencedores chama-se Calhandra de Ouro, nome de uma ave da região que só canta estando em liberdade.

O festival nasceu em 1971, em Uruguaiana, promovido pelo CTG Sinuelo do Pago, com muito pouca repercussão na 1a edição, “devido à falta de crédito no Movimento”, afirma Colmar Duarte (Uruguaiana). O fato de ter sido promovido pelo Sinuelo do Pago, segundo ele, foi apenas circunstancial, pois o festival precisava ser apoiado por uma instituição. “A Califórnia nasceu dentro de um CTG como poderia ter nascido no Lions, no Rotary ou no Comercial”. Segundo ele ainda, “a idéia inicial não era esse radicalismo imposto pelos tradicionalistas, pois na 1a edição a vencedora levou ao palco instrumentos eletrônicos e os intérpretes usavam smoking”. Devido a interferência do Tradicionalismo, já na 4a edição o festival entrou em crise, pressionado por músicos e compositores descontentes. Então, a partir da 5a Califórnia foram instituídas três linhas de “manifestações”, criadas para abrigar os artistas de expressão mais urbana, que queriam participar “deste palco” para mostrar seu trabalho, embora sofressem as sanções do regulamento original.

As linhas adotadas e copiadas mais tarde por alguns festivais foram:

 

a) linha campeira - que se identifica com o homem, o meio,

os usos e os costumes do campo do Rio Grande do Sul;

 

b) linha de manifestação Riograndense - que enfoca outros

aspectos socioculturais e geográficos do Rio Grande do Sul não

limitados estritamente à linha campeira; e,

 

c) linha de projeção folclórica - que, partindo das linhas definidas nas alíneas a e b, projeta-se com sentido de universalidade artística em termos de tratamento poético-musical.

Para Colmar Duarte, as músicas vencedoras da 5ª Califórnia (1975) representam perfeitamente as três linhas propostas pela

nova etapa do festival.

Linha Campeira

RODA CAMPO

Aparício Silva Rillo e Mário Barbará Dornelles

Meu canto chega de longe

Vem na garupa do vento

Vem no vento, vem

Da furna funda do tempo

Veio do grito da bugra

Amando o primeiro branco

Sangue, sol

Sêmen, semente

Foi flete, foi lance, laço

Foi guerra e foi pastoreio

Foi berço, foi cancha e campa

Foi rumo, rancho e razão

Foi rumo, rancho e razão

Meu canto, chega de longe

Foi destino e foi estrada

Estrada, foi

Por onde cruzava o boi

Foi massa, cambota e raio

Alvoradas e sol por

Roda, rodado rodando

Enquanto a roda do tempo

Acompanhava a carreta

Roda rodando rodando

Fazendo das sesmarias

Trilho aberto e campo em flor

Meu canto chega de longe

Do pai, do pai, de meu pai

Sangue, sol

Sêmen, semente

Roda, rodando se vai

 

Linha de manifestação Rio-Grandense

 

CORDAS DE ESPINHO

Luiz Coronel

Geada vestiu de noiva

Os galhos da pitangueira

Ainda caso com Rosa

Caso ela queira ou não queira

Pra domar o meu destino

Comprei um buçal de prata

Nenhum pesar me derruba

Qualquer paixão me arrebata

Acordoei minha viola

Com seis cordas de espinho

Meu canto tem cor de sangue

Teu beijo gosto de vinho

Fui aprender minha milonga

Na água clara da fonte

O canto do quero-quero

Mais que um aviso é uma ponte

 

LINHA DE PROJEÇÃO FOLCLÓRICA

 

PIQUETE DO CAVEIRA

Kledir Ramil e José Fogaça

Lanças erguidas, espadas no ar

É o piquete do caveira que chegou pra espantar

Pra espalhar os inimigos, pra mandar e desmandar

É ponta de faca, é relho na mão

Cavalhada disparada vai deixando pelo chão

A marca do piquete do caveira valentão

Cavalo negro é escuridão

O lenço preto assombração

Botando gente pra valer

Vem chegando, vem chegando, vem chegando-Caveira

Vem chegando, vem chegando, vem chegando

Cavalo negro é escuridão

O lenço preto assombração

Botando gente pra correr

Lanças erguidas, espadas no ar

É o piquete do caveira que chegou pra espantar

Pra espalhar os inimigos, pra mandar e desmandar

É ponta de faca, é relho na mão

Cavalhada disparada vai deixando pelo chão

A marca do piquete do caveira valentão

Cavalo negro é escuridão

O lenço preto assombração

Botando gente pra correr

Vem chegando, vem chegando, vem chegando-Caveira

Vem chegando, vem chegando, vem chegando

Cavalo negro é escuridão

O lenço preto assombração

Botando medo pra valer

 

A Califórnia, nestes anos, sofreu crises ligadas a questões ideológicas e de estrutura refletidas entre os músicos, público, organizadores, jurados e imprensa: “Letras repetitivas, ufanistas e músicas de uma chatice de doer ante a total falta de renovação e criatividade. Controlados por regulamentos fechados, onde não é permitida a utilização de determinados instrumentos e temas, como forma de ‘preservar’ o que é nosso, o que tem se assistido é a um festival de mesmice, músicas fadadas ao esquecimento” (Eitelvein, 1985, p.25).

Em 1981 novamente o festival é alvo de discussão, quando a própria Comissão de Triagem lançou um documento chamado “Carta de Uruguaiana”, em que analisa as 297 composições inscritas e conclui que há “a repetição de temas ligados à tradição e ao folclore gaúcho, o emprego exaustivo e geralmente inadequado de certos temas gauchescos, a compulsão ao passado e à infância como pano de fundo para as letras, o escasso enfoque que vem tendo a realidade humana e socioeconômica do Rio Grande do Sul contemporâneo, o uso repetitivo de clichês, a rara utilização

de certos ritmos, a utilização de ritmos alienígenas” (citado por Oliven, 1984, p.64). A Carta, que “sem outro intuito que não seja o de pretender colaborar para o aprimoramento da música rio-grandense-do-sul de extração nativa” (citado por Oliven, 1984, p.64), foi contestada por um dos compositores participantes que lançou a “Anticarta de Uruguaiana”.

A Califórnia foi o maior alvo de críticas por ser o festival pioneiro, o mais importante, o que desencadeou o Movimento Nativista e é nela que se espelha o futuro do movimento. A despeito das polêmicas, milhares de pessoas em todo o Estado, freqüentavam os festivais em busca de sua identidade cultural mesmo que através da festa e dos acampamentos. A polêmica ficou por conta dos artistas e intelectuais.

 

Tradicionalismo versus nativismo

 

Diversos são os pontos polêmicos quando está em debate a cultura regional do Rio Grandedo Sul. A maior oposição ocorre entre tradicionalistas e nativistas, desencadeada pelos primeiros em vista da dimensão conquistada pelos últimos, prejudicando o controle ideológico do Movimento Tradicionalista. Mas há ainda uma corrente que combate os dois movimentos. A discussão começa pela paternidade da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana. Uma ala do Tradicionalismo requer para si a idéia, afirmando que ela partiu de Hugo Ramires, quando era presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), ao formular o plano cultural para 1968/1969, prevendo a realização de um festival. Ele seria realizado em Santa Maria, por ser o “coração do Rio Grande”, por ser uma cidade universitária e porque ali se realizou o 1º Congresso Tradicionalista. Entretando, a idéia teria sido lançada em Uruguaiana e lá realizada: “os festivais nasceram do Tradicionalismo, do MTG, dentro de um CTG que é o Sinuelo do Pago de Uruguaiana”, diz Antônio Augusto Fagundes (Porto Alegre).

Os nativistas divergem quanto ao reconhecimento da participação do Tradicionalismo na criação do Movimento Nativista.

Luiz Carlos Borges (Santa Rosa) diz que “um movimento independe do outro. O Nativismo é um movimento espontâneo, resultado de um novo e recente ciclo cultural (ciclo dos festivais), que procura tomar pé, caminhando por si só. [...] A paternidade do Nativismo que o Tradicionalismo advoga para si é inaceitável”. Elton Saldanha (1986, p.12) diz que “quanto a ser um movimento que partiu da ideologia do Tradicionalismo eu até concordo, por  que ele nasceu da idéia de alguns tradicionalistas. Mas daí em diante passou a ser levado a público um movimento maciço da música nativista, por jovens e não por tradicionalistas”.

Dois críticos de música simpatizantes do Nativismo dizem que “preservar certas tradições é necessário, e nisso os CTGs cumprem seu papel. Agora, querer encampar os festivais do Rio Grande do Sul, como propriedade do ‘Movimento Tradicionalista’ é uma aberração” (Fonseca e Eitelvein, Tarca, n.14, p.25), colocando-se na corrente dos que acreditam que o Tradicionalismo quer assumir como seu um movimento que surgiu fora dele.

Os tradicionalistas mais radicais não admitem o fato de existir outro movimento do porte do Tradicionalismo acontecendo paralelamente, dizem que o Nativismo não existe como movimento, que é apenas uma derivação do criado por eles em 1948. Paixão Côrtes (Porto Alegre), o mais famoso tradicionalista, diz que se hoje existe esta corrente musical-poética-jornalística intitulada Nativismo, ela não é nada mais, nem menos, do que uma decorrência dos hábitos e dos costumes que o Movimento Tradicionalista criou para desenvolver. [...] O que há, são pessoas que vivem em Porto Alegre, que fazem a vida noturna da cidade, que participam dos festivais, que se autodenominam nativos, mas que não sabem nem as origens da terra onde nasceram e vivem tocando em bares e festivais.

Na mesma linha raciocina Antônio Augusto Fagundes (Porto Alegre) dizendo que “transformar sentimento num movimento é uma hipérbole literária inaceitável”, fazendo alusão ao Nativismo como amor à terra, o qual é um sentimento que faz parte dos princípios do Tradicionalismo. “Aqui temos um Movimento Tradicionalista do qual o Nativismo é parte”, conclui. Barbosa Lessa (Porto Alegre) corrobora estas opiniões: “nativista é um acréscimo ao Tradicionalismo, na parte da música [...]. O Nativismo ‘está’ nativista na hora que prepara uma música, na hora de concorrer num festival, na hora da premiação e depois deixa de ser até o outro festival. [...] Se tirar o CTG do festival, desaparece o Nativismo”.

Entre os tradicionalistas, há ainda posturas mais flexíveis, como as de Milton Souza (Tarca, n.14, p.8), ligado à Califórnia: “Nativismo existe e está aí. [...] há uma omissão dos CTGs, dos tradicionalistas, virando as costas para um Movimento que é uma realidade, que é esse Movimento artístico-musical do RS”. E para Mozart Pereira Soares (Tarca, n.14, p.4-5), “não só é possível distinguir-se Tradicionalismo de Nativismo, como este de regionalismo. [...] ambos estão pretendendo a mesma coisa, por vias diferentes. Mas é preciso que essas duas tendências não radicalizem as coisas”. Colmar Duarte (Uruguaiana) acrescenta que “o Tradicionalismo é um Movimento radical onde só é gaúcho quem usa bota e bombacha. O nativista é essa pessoa que se integrou ao Movimento cultural despreocupado com os aspectos radicais”.

Críticos e artistas ligados a outras correntes também analisam a movimentação cultural gaúcha da década de 1980 e participam do debate: Luiz Coronel (Porto Alegre), por exemplo, diz que “o projeto Nativista é um antiprojeto, ou seja, veio para combater o Tradicionalismo, mas não tem uma proposta inovadora. [...] os nativistas são um pouco mais urbanos, mas o ranço permeia ambos” .

Para Dilan Camargo (Tarca, n.12, p.11), “este novo regionalismo tem um potencial mais ‘nativista’ do que o ‘tradicionalista”’ e para Galileu Arruda (Tchê, n.23, p.9), “os festivais levaram as pessoas a ter uma conduta regionalista completamente fechada”.

Ao contrário, Nelson Coelho de Castro (Tchê, n.28, p.8) diz que “... nossa cultura urbana e nativa até bem pouco tempo atrás era fonográfica. Hoje ela é de contato”.

Outro ponto fundamental da polêmica é quanto aos ritmos e instrumentos que “podem” ser usados na música gaúcha, ou seja, os tradicionalistas impõem uma série de restrições quanto a estes dois aspectos da criação musical, em nome das raízes da cultura gaúcha. Entretanto, entre eles, há os que desconsideram este purismo e aceitam as inovações tecnológicas e estéticas.

Nas palavras de Mozart Pereira Soares (Tarca, n.14, p.5) a questão se define prontamente quando declara que “sempre fui a favor disso, da guitarra elétrica, do sintetizador”, e Jayme Caetano Braun (Tarca, n.8, p.4) comentando os ritmos vai no mesmo sentido dizendo que “a mazurca, a rancheira, a vanera são ritmos vindos da Europa. E é aí, onde está a nossa maior cultura, que o pessoal quer depreciar. O bonito é a diversificação. No entanto, querem caracterizar a nossa música como bugio, que é um ronco de vanera, de rancheira”. Antônio Augusto Fagundes (Tchê, n.24, p.8) complementa a discussão incluindo outro ponto: “a milonga nunca foi ritmo tradicional do RS [...]. Ritmos tradicionais do folclore do RS são a valsa, a mazurca, as polcas, o xote, a rancheira, a habanera, a marcha e marchinha”, e Luiz Carlos Borges (Santa Rosa) se declara mais flexível dizendo que “não se tem constatado um ritmo gaúcho. Não existe ritmo gaúcho, todos os ritmos que aqui se toca são alienígenas, que chegaram e se aculturaram através do tempo e são ditos ritmos gauchescos. Eu diria, estes são os ritmos mais tocados no RS, mas não do RS. O mais provável, mas que ninguém tem provas é o Bugio [...]. Os conservadores não admitem o uso do contrabaixo eletrônico, nem da guitarra elétrica, tampouco da bateria, dizendo até, que tais, desnaturam os festivais. Os bailes de CTGs são ‘abrilhantados’ com conjuntos musicais que só usam tais instrumentos. A polêmica é um contra-senso”.

Rose Marie Garcia (Santa Maria) concorda com os argumentos de Luis Carlos Borges, dizendo que “são os novos ritmos, produtos de mescla feitos aqui e justamente por isso deveriam ser aceitos como produto de uma criação espontânea, de uma evolução musical dos nossos compositores e instrumentistas. Daqui a algum tempo as pessoas vão se dar conta que existem novos gêneros no RS, ressalvo que um gênero não surge do nada, ele tem que ser aceito, tem que ter características que o identifiquem e que não permita a confusão com outros”. No mesmo sentido posiciona-se Sérgio “Jacaré” Metz (1986), cuja opinião remete-se à dinâmica cultural dizendo que “as empresas agrícolas digitam computadores que Geraldo Flach ou Nico Nikolaievski gostariam de ter a mão para enriquecer nossos ritmos. No palco, porém, os artistas têm que se limitar a bater sobre um couro de cabrito o porrete de pitangueira, pois daí serão ‘autênticos”’. Entretanto, há os que são radicalmente opostos, como João Almeida Neto (Santa Maria) ao declarar que “musicalmente eu sou mais pela preservação daquilo que está feito, do que partir desesperadamente para a busca de uma nova música. Eu prefiro solidificar a música atual.

Então o meu pensamento é bastante conservador”.

Quanto à indumentária, a discussão gira mais em torno dos festivais e CTGs,10 porque seu uso nas ruas e outros ambientes perdeu o controle do MTG. A maioria dos festivais inclui em seu regulamento o uso obrigatório da “pilcha” para apresentação das músicas concorrentes. Para uma idéia do nível de exigência de alguns regulamentos em termos de rigidez e detalhes, reproduz-se os artigos referentes ao item indumentária contido nos regulamentos

do 4° Canto Nativo de Santo Augusto (1987) e do 3º Reponte da Canção Crioula do Litoral Sul (1987).

1. – Art. 22º - Os intérpretes e instrumentistas deverão apresentar-

se em palco, trajando indumentária típica do RS, contemporânea

ou integrada ao folclore histórico, permitidas estilizações que não deturpem ou descaracterizem a chamada pilcha gaúcha.

2. – Art. 27º - Todos os concorrentes deverão subir ao palco trajando, obrigatoriamente, Indumentária Típica Campeira do RS (não serão permitidas camisetas com slogan ou com características publicitárias).

10-No 43° Congresso Tradicionalista realizado em janeiro de 1998 ficou decidido

que a indumentária gaúcha deve ser padronizada (Zero Hora, 13/ 1/ 98)

Fora dos festivais, a pilcha, tradicionalmente masculina, foi transformada pelos adeptos urbanos em bombachas de “jeans”, usadas com camisetas, alpargatas ou tênis, tanto por mulheres como por homens, como o faziam Kleiton e Kledir em suas apresentações.

A maior divergência, entretanto, reside nos conceitos e definições que envolvem o debate, sendo que para os tradicionalistas este é um ponto fundamental, pois está em jogo a sua hegemonia no contexto cultural regional, depois de 30 anos de absoluto

domínio.

A questão foi observada durante o desenvolvimento da pesquisa que embasou este estudo, mas já havia sido muito bem assinalada por Ruben Oliven (1984, p.60): “quando se entrevistam tradicionalistas, apesar de sua preocupação em delimitar conceitos e fronteiras, observa-se uma grande dificuldade em definir termos como tradição, folclore, regionalismo, Nativismo, cultura regional, etc.”. Isto se deve provavelmente ao fato de que também há muita divergência dentro do próprio MTG. Já entre os nativistas foi observada uma preocupação maior com a produção musical, com a renovação estética da música regional e com a retomada da identidade cultural, ficando a discussão semântica e conceitual para um segundo plano, ou melhor, para um momento posterior, para consulta de criação. Se partíssemos para o regional, não o regionalismo no sentido de Tradicionalismo, mas o regional urbano, teríamos a boa vontade do público gaúcho. Além de tudo, o Rio Grande do Sul sempre teve uma postura meio à margem do Brasil”.