HISTÓRIA TRADICIONALISMO E PRIMEIRAS ENTIDADES
O culto às tradições
“Tradição gaúcha -
vocábulo usado no plural, significando o rico acervo cultural e moral do Rio
Grande do Sul no campo literário, folclórico, musical, usanças, adagiário,
artesanato, esportes e atividades rurais” (Nunes e Nunes, 1984), ganhou relevância com a apresentação da tese O sentido e
o valor do Tradicionalismo de autoria de Barbosa Lessa, no I Congresso
Tradicionalista. Nesta ocasião foram definidos também os fundamentos e a diretriz
filosófica para o movimento, que começara seis anos antes, de maneira intuitiva
e espontânea:
Em decorrência, o
Movimento parte para uma linha de massificação popular, menos elitizante, menos intelectualizada [...] até se consagrar
como o maior Movimento popular de cultura em todo o mundo ocidental: 2 milhões
de participantes ativos (sic) (Lessa, s/d, p.3).
Esta tese foi baseada,
segundo seu autor, nas coordenadas teóricas da Escola Sociológica de Chicago,
sob os ensinamentos diretos de Donald Pierson e
indiretos de Ralph Linton (Lessa, 1985, p.80-82).
Resumidamente ela propunha o fortalecimento de “grupos locais”, que estavam se
esfacelando diante das características da nova organização social do mundo
contemporâneo, resultando no enfraquecimento da vida em grupo.
A proposta foi
encaminhada em nível associativo e sociopolítico, que na prática foi definido
na criação de núcleos (CTGs)para realçar os valores
tradicionais, através de atividades artísticas e convívio
O Movimento
Tradicionalista Gaúcho pode-se dizer então, originou-se de forma espontânea,
criado por jovens secundaristas que sentiam a necessidade de ligar-se às suas
raízes, mas como decorrer do tempo foi crescendo e se estruturando, resultando
neste “código cultural”, que Luiz Coronel denomina como “patronagem cultural”,
que são os princípios norteadores do movimento.
Iniciadores do
movimento, entre eles Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, criaram ou recriaram
grande parte do que hoje se acredita ser o folclore gaúcho, como algumas
danças, canções, indumentária, poesia, até alguns costumes como a maneira de
apertar a mão no cumprimento: “[...] éramos tradicionalistas, gente mantendo
ativamente no presente aspectos do passado, com vistas ao futuro. Quando algum
elemento faltasse para a nossa ação, nós teríamos de suprir a lacuna de um
jeito ou outro” (Lessa, 1985, p.64). O procedimento, de criar as tradições,
posteriormente foi justificado por Lessa e Côrtes, apoiados na publicação no
Brasil do livro A invenção das tradições de Eric Hobsbawm
e Terence Ranger, que pelo visto veio
anos mais tarde corroborar as atitudes dos pioneiros do Tradicionalismo
gaúcho (Idem, p.69-72).
O Tradicionalismo,
segundo Glaucus Saraiva (1968, p.15), outro dos
fundadores do movimento, é um sistema organizado e planificado de culto,
prática e divulgação desse todo que chamamos tradição.
Obedece a uma hierarquia própria, possui alto programa contido
Ocorre no Rio Grande
do Sul, portanto, um fenômeno singular, além do folclore que
é uma manifestação popular impregnada de tradicionalidade,
o Tradicionalismo, que é um culto às tradições, que também é popular, mas que
nada ou quase nada permite de mutações que são intrínsecas ao folclore.
Entre os tradicionalistas, inclusive, existem alguns folcloristas que se
equilibram entre um lado e outro, como declara um deles, Antônio Augusto
Fagundes (1983, p.8): por um lado, como folclorista, me compete registrar a
realidade sem interferir nela. Por outro lado, e antes de ser folclorista, o
que me dá uma outra vinculação [...] eu devo pugnar pelos valores tradicionais que
caracterizam ideologicamente o gaúcho no RS. Então, como tradicionalista, eu
tenho uma função intervencionista na cultura do RS [...] como tradicionalista
eu condeno nos rodeios o uso de calça Lee e do chinelo de dedo. Como
folclorista eu registro isto que está acontecendo.
O tradicionalismo
Segundo a maioria dos
historiadores do movimento, os precursores do Tradicionalismo no Rio Grande do
Sul foram os intelectuais que integravam a Sociedade Partenon Literário,
fundada em1868
Os integrantes do
Partenon, através do trabalho de divulgação em revistas, livros,conferências
e jornais, queriam ser portavozes do telurismo que sentiam fazer parte dos habitantes do Sul do
País. Foi a primeira tentativa de dimensionar a
literatura no Rio Grande do Sul, pois antes disto havia apenas registros
esparsos.
Além da preocupação
com a literatura regional, usaram da tribuna e da revista para defender temas
como a abolição da escravatura, a república, a liberdade de ensino e a tarefa
patriótica de educar a mulher (Moreira, 1982, p.24).
Apolinário
Porto Alegre e Caldre e Fião
são os criadores do romance sul-rio-grandense, o qual, segundo Regina Zilberman (1985, p.21), “encampou a visão do gaúcho, tornando-se
uma das facetas de um processo de valorização da cultura local que se enraizou
no Sul e expressou-se de maneira variada em diferentes modalidades artísticas,
como a música, a dança, as artes plásticas”, inaugurando, assim, o Movimento
Regionalista no Rio Grande do Sul.
O Partenon Literário, através de seus líderes, tratou de “recuperar a tradição
popular oral que, nos idos de 1870, já parecia se perder” (Zilberman,
1985, p.21). Esse movimento literário foi circundado pela luta pró-federação,
evidenciada pela fundação em 1860 do Partido Liberal Histórico, que foi o
“marco inicial no revigoramento consciente da tradição sul-rio-grandense,
enquanto limitada apenas a uma das heranças políticas de 1835: a idéia
federativa para a nação brasileira” (Lessa, 1985, p.33). O Partido Liberal
Histórico “levantava a bandeira da descentralização administrativa e da
representação das minorias. Propunha-se a defender os mais legítimos anseios de
35 (a “epopéia farroupilha”) e responder mais de perto às necessidades da
província” (Pesavento, 1984, p.52). Em 1872, ganhou
as eleições para a Assembléia Legislativa local, em pleno domínio do Partido
Conservador, mas chegando ao poder passou a defender a situação vigente numa
atuação marcadamente conservadora. Para combater esta mudança de proposta do
Partido Liberal, os republicanos gaúchos fundaram o Partido Republicano Rio- Grandense (PRR) em 1882 sob a
ideologia do positivismo, que diferentemente do que aconteceu na Europa, onde
surgiu como defensor do desenvolvimento capitalista, chegou ao Rio Grande do
Sul para implantar o sistema. O PRR se propunha a realizar a modernização
exigida. A ideologia importada, posta a serviço das condições
histórico-objetivas locais, fornecia os elementos
básicos que norteariam a ação do grupo no poder: desenvolver
as forças produtivas do Estado, favorecer a acumulação privada de capital e
propiciar o progresso harmônico de todas as atividades econômicas (Pesavento, 1984, p.52).
Com a Proclamação da
República, a situação política do Estado se tornou muito conturbada, primeiro
com a deposição de Júlio de Castilhos em 1891 (voltou em 1892), depois com a
Revolução Federalista, entre 1893 e 1895, que se opunha à Constituição imposta
por Júlio de Castilhos, de cunho extremamente autoritário.
No plano nacional, a
República recém-instalada também luta por consolidar-se diante de várias crises
políticas causadas pela mudança de regime.
É nesta atmosfera, e
certamente por causa dela, que surgiram no Rio Grande do Sul
várias tentativas de fundação de entidades cívicas, talvez na busca de
consolidação republicana através do incentivo ao patriotismo e ao culto às
tradições nacionais e estaduais, já que faltavam prestígio e embasamento
ao novo regime.
As primeiras entidades tradicionalistas a serem fundadas no Rio Grande do
Sul foram as seguintes:
1-GREMIO GAÚCHO DE PORTO
ALEGRE
O primeiro núcleo foi
fundado pelo Major João Cezimbra Jacques (patrono do Tradicionalismo) em 22 de Maio de 1898 e tinha o nome de Grêmio Gaúcho de Porto Alegre. Os objetivos da
entidade, segundo seu fundador, eram claramente cívicos: surgiu-nos a idéia de
fundarmos o Grêmio Gaúcho para organizar o quadro das comemorações dos
acontecimentos grandiosos de nossa terra. Pusemos mão à obra, auxiliados por um
grupo de patriotas destemidos.
Pensamos que esta
patriótica agremiação não é destinada a manter na sociedade moderna usos e
costumes que estão abolidos pela nossa evolução natural, mas sim, a manter o
cunho do nosso glorioso Estado e conseqüentemente as nossas grandiosas tradições.
(Citado por Lessa, 1985, p.41)
Desta entidade poder‑se‑ia
dizer o seguinte:
"O Grêmio
Gaúcho se constitui no mamo inicial, de cerne de guajuvira, chantado no ponto
zero da senda do tradicionalismo sul‑riograndense,simples
vereda que se foi transformando na magnífica estrada dos
nosso dias." (Cadernos Gaúchos - Hélio Moro Mariante).
2-UNIÃO GAÚCHA DE PELOTAS
Teve como sua data de fundação 10 de Setembro de 1899, apenas dezesseis meses após a fundação do
Grémio Gaúcho. Sediada na cidade de Pelotas, foi o segundo marco do tradicionalismo gaúcho,
implantado por João Simões Lopes Neto,
fundando a União Gaúcha de Pelotas em 1899, cuja proposta era bem mais objetiva
que a de Cezimbra Jacques: “civismo e patriotismo
eram bem mais do que elucubrações emotivas e deveriam se firmar,
pragmaticamente, no seio da sociedade e, principalmente, no currículo das
escolas estaduais” (citado por Lessa, 1985, p.41).
A proposta de João Simões
Lopes Neto era articulada com o momento político que o Brasil estava vivendo e
demonstrava claramente o objetivo da entidade frente ao novo contexto. Segundo
ele, feita a nova República, o fato da mudança da forma de governo não foi e
não é por si mesmo bastante para facultar-nos uma era nova de completa
regeneração.
As formas de governo têm um
valor relativo, pois a forma progressiva das nações atua de baixo para cima e
não de cima para baixo. É, pois a nós mesmos, é ao povo, é à
Nação, que cumpre corrigir e reformar se quisermos realize a República as
bem-fundadas esperanças que brotam nos corações brasileiros com o seu desejo e
auspicioso advento” (Lopes Neto citado por Lessa, 1985, p.42).
3-CENTRO GAÚCHO DE BAGÉ
Foi fundado em 20 de Setembro de
1899 na cidade de Bagé.
4-GREMIO GAÚCHO DE SANTA MARIA
Teve como data de fundação o dia 12 de Outubro de 1901.
De Bagé, a estrada tradicionalista dirigiu‑se para o centro
geográfico do RS: Santa Maria.
5-SOCIEDADE GAÚCHA DE LOMBA
GRANDE
Fundada aos 31 dias do mês de
Janeiro do ano de 1938. De Santa Maria infletiu para São Leopoldo, no distrito
de Lomba Grande, a caminhada do movimento tradicionalista.
6-CLUBE FARROUPILHA DE IJUÍ -
1943
Estas entidades
representam a primeira fase do Tradicionalismo,
segundo os historiadores do movimento. Delas apenas o Grêmio Gaúcho e a União
Gaúcha de Pelotas conseguiram ter alguma atuação correspondente aos propósitos
iniciais durante mais tempo, antes de se tornarem apenas entidades recreativas.
A criação dos CTGs
A segunda fase, a do
Tradicionalismo propriamente dito, inicia se com a criação do
35 Centro de Tradições Gaúchas de Porto Alegre, no dia 24 de abril de
1948, por um grupo de estudantes do Colégio Estadual Júlio de Castilhos,
todos vindos do interior do Estado.
O
35, nome dado em homenagem à
Revolução de 1835, foi estruturado com bases idênticas às que hierarquizam a
estância, propriedade rural de grande extensão, ou seja, com patrão, capataz,
sota-capataz, agregados, posteiros, correspondendo aos títulos de presidente,
vice-presidente, secretário, tesoureiro e diretor.
Os conselhos
consultivos ou deliberativos foram chamados de Conselho de Vaqueanos e os
departamentos de Invernadas.
Segundo Barbosa Lessa,
um dos fundadores do 35 CTG, o que levou o grupo a
reunir-se e organizar esse movimento foi o estado de coisas em que se
encontrava o Brasil do pós-guerra, refletindo a situação no Rio Grande do Sul: Porto
Alegre nos fascinava com seus anúncios luminosos a gás neon,
Hollywood nos estonteava com a tecnocolorida beleza
de Gene Tierney e as aventuras de Tyrone
Power, as lojas de discos punham em nossos ouvidos as
irresistíveis harmonias de Harry James e Tommie Dorsey mas, no fundo, no
fundo, preferíamos a segurança que somente nosso “pago” sabia proporcionar, na
solidariedade dos amigos, na alegria de encilhar um “pingo” e no singelo
convívio das rodas de “galpão”. (Lessa, 1985, p.56)
Onésimo Duarte e Edson Otto
(1986), ambos pertencentes ao Movimento Tradicionalista, também fazem uma
análise do momento histórico em que foi criado o 35, dizendo que imediatamente
após originou-se um violento processo de descaracterização do que era nosso.
Música, literatura, arte, vestimentas, tudo, enfim, nos era impingido de fora.
[...] De tal forma que a cada dia nos tornávamos menos gaúchos, menos
brasileiros, a cada passo mais confundíveis com as civilizações da América do
Norte e Europa Ocidental.
Analisando a situação
nacional, Gerson Moura (1984, p.8), sem referir-se às reações regionais como as do movimento gaúcho, confirma as condições expostas acima
dizendo que a chegada visível de Tio Sam ao Brasil
aconteceu mesmo no início dos anos 40, em condições e com propósitos muito bem
definidos. A presença econômica,
menos visível, era bem anterior e certas manifestações
culturais, como o cinema de Hollywood, já inculcavam valores e ampliavam
mercados no Brasil.
Mas a década de 40 é
notável pela presença cultural maciça dos Estados Unidos, entendendo-se cultura
no sentido amplo dos padrões de comportamento, da substância dos veículos de
comunicação social, das expressões artísticas e dos modelos de conhecimento técnico
e saber científico. O traço comum às mudanças que então ocorriam no Brasil na
maneira de ver, sentir, explicar o mundo era a marcante influência que aquelas
mudanças recebiam do american way of life.
Por outro lado,
anteriormente a esta “invasão” norte-americana à cultura do Rio Grande do Sul,
o Estado Novo havia deixado marcas indeléveis na autonomia política, econômica
e cultural do Estado, fato apontado como determinante para a aglutinação do grupo
fundador do 35.
No plano econômico, a
ditadura de Vargas determinou que ao Rio Grande do Sul caberia
“fornecer alimentos baratos para o trabalhador nacional” (Pesavento,
1987, p.115), retardando o processo de industrialização sulino. No plano
político-cultural o governo Vargas resolveu “aniquilar os regionalismos e
acelerar o processo de centralização do poder. Foram extintos os partidos,
queimadas as bandeiras estaduais e banidos os escudos, hinos e outros símbolos
regionais” (p.115).
Para uma cultura marcadamente
regional, como a do Rio Grande do Sul, determinada por seu contexto histórico,
esses acontecimentos foram básicos para determinar a busca das raízes e
tradições perdidas entre estes dois momentos de cerceamento de sua manifestação
o que fez com que o sucesso do 35 se espalhasse
amplamente.
Nos primeiros cinco
anos foram fundados aproximadamente 35 CTGs no Estado,
seguindo as finalidades propostas pelo pioneiro (Lessa, 1985):
a) zelar pelas tradições do
RS, sua história, suas lendas, canções, costumes, etc., e conseqüente
divulgação pelos Estados irmãos e países vizinhos;
b) pugnar por uma sempre
maior elevação moral e cultural do RS; e,
c) fomentar a criação de
núcleos regionalistas no Estado, dando-lhes todo o apoio possível.
Até o final da década
de 1980 existiam mais de mil CTGs no Estado e centenas
fora, muitos no exterior, sendo que só naquela década foram criados 283 (Urbim, 1984) em virtude da nova onda de gauchismo
desencadeada pelo Movimento Nativista.
O primeiro impulso,
porém, foi dado em 1954, quando convocado um encontro dos CTGs
existentes para o 1o Congresso
Tradicionalista Gaúcho, realizado
Estrutura dos CTGS
Um CTG procura lembrar o
mais fielmente possível a vida do gaúcho no passado,
suas lides na fazenda, feitos e fatos do RS. [...]
Assim o centro, ou o clube,
é a Estância. Seu presidente, o Patrão, o Capataz corresponde ao
vice-presidente, o Sota-capatazes que comumente denominam-se de secretários.
Conselho de vaqueanos é uma espécie de conselho consultivo formado de homens
mais experientes que conhecem o campo. O Agregado das Pilchas vem a ser
o tesoureiro. Agregado das falas corresponde ao Orador. [...] Por fim vem o peão e a prenda, os sócios masculino e feminino e os piás,
as crianças. (Côrtes, 1981, p.17)
A Federação dos CTGS –
MTG
O Movimento
Tradicionalista Gaúcho, MTG, é a federação dos CTGs e
entidades afins, que coordena todas as atividades do Tradicionalismo no Rio
Grande do Sul e está dividido em 30 coordenadorias, chamadas regiões
tradicionalistas. A criação do MTG ocorreu em 1966, durante o XII Congresso
realizado em Tramandaí, embora já houvesse sido posta em discussão em muitos
outros encontros anteriores. A necessidade da criação desta federação, segundo
os tradicionalistas, deve-se ao fato de que as entidades filiadas não adotavam
as deliberações dos congressos, devido à inexistência de órgão fiscalizador.
O MTG tem como órgãos
normativos o Congresso Tradicionalista “que fixa a política do movimento” e a Convenção
Tradicionalista “com funções legislativas” (Duarte e Otto, 1986, p.6). Este
órgão funciona como “catalizador, disciplinador e
orientador das atividades dos seus filiados, preconizando a Carta de Princípios
do Tradicionalismo Gaúcho” (Mariante, 1967, p.13), escrita em 1961 por Glaucus
Saraiva e aprovada no VIII Congresso, em Taquara.